Você, que é pintor, como se sente quando alguém olha para uma tela sua e diz que está vendo alguma coisa que, na verdade, você não reproduziu intencionalmente?
Eu acho o máximo.
Aliás, acho que essa é uma das coisas mais fascinantes que podem acontecer com uma pintura.
Porque, naquele momento, alguma coisa aconteceu que está além da minha intenção.
Eu pintei uma coisa e alguém viu outra.
E isso, para mim, não é um erro de interpretação. É justamente a graça da coisa.
Eu pinto para as pessoas e, às vezes, pinto para mim. Mas, em qualquer uma dessas situações, eu faço com todo o meu coração e toda a minha alma. É assim que sei fazer. Não sei fazer de outra maneira.
Talvez por isso eu acredite tanto na espontaneidade.
A técnica é importante. Muito importante.
A gente estuda, pratica, observa, erra, repete, experimenta. Aprende sobre cor, composição, desenho, luz, perspectiva, matéria, pincéis, tinta, valores, proporção. Tudo isso faz parte do ofício.
Mas existe um momento em que você precisa esquecer um pouco de tudo isso.
Não porque deixou de ser importante.
Mas porque você já aprendeu.
Quando você conversa com alguém, fica pensando no que é plural, no que é pretérito perfeito ou imperfeito? Quando você diz uma palavra, fica analisando se ela é um substantivo, um adjetivo ou um verbo?
Acho que não.
Você simplesmente fala.
Você aprendeu a língua e, depois de algum tempo, deixou de pensar nas regras para conseguir se expressar.
É mais ou menos assim que vejo a pintura.
Você estuda durante anos. Aprende as regras. Aprende a observar. Aprende a construir uma imagem.
Até que, em algum momento, precisa confiar naquilo que aprendeu e simplesmente pintar.
É aí que a coisa começa a ficar interessante.
Porque, se eu estiver pensando o tempo inteiro em cada regra, em cada pincelada, em cada mistura de cor, talvez eu consiga fazer uma pintura tecnicamente correta.
Mas será que ela vai estar viva?
Não sei.
Eu prefiro correr o risco de errar.
Prefiro uma pincelada que tenha intenção, mas também tenha liberdade.
Prefiro uma pintura que respire.
Um músico, quando está tocando, não fica pensando o tempo inteiro nos modos gregos, nas escalas, nos acordes ou na teoria musical.
Ele estudou tudo isso.
Mas, quando a música acontece, ele toca.
Ele sente.
Ele responde ao que está ouvindo.
E, às vezes, toca uma nota que nem estava planejada.
É nesse momento que pode nascer alguma coisa especial.
Na pintura também é assim.
Às vezes você coloca uma pincelada pensando em uma coisa e ela cria outra.
Uma mancha de tinta se transforma em uma forma.
Uma forma sugere outra.
Uma cor começa a conversar com outra.
Uma sombra parece ganhar um significado que você não havia imaginado.
E você poderia simplesmente corrigir.
Poderia apagar.
Poderia cobrir.
Mas, às vezes, é melhor deixar.
Porque aquela pequena coisa inesperada pode ser justamente aquilo que dá vida à pintura.
As melhores obras, muitas vezes, não são aquelas em que tudo aconteceu exatamente como planejamos.
São aquelas em que alguma coisa aconteceu no caminho.
Algo escapou do controle.
E ainda bem.
Porque talvez a arte esteja justamente nessa pequena distância entre aquilo que pretendíamos fazer e aquilo que realmente aconteceu.
Existe uma diferença enorme entre pintar uma coisa e controlar completamente o que uma pintura significa.
Eu posso escolher uma referência.
Posso escolher uma paisagem, uma pessoa, um objeto, uma fotografia, uma lembrança ou simplesmente uma ideia que apareceu dentro de mim.
Mas, depois que começo a pintar, a obra começa a me responder.
Ela pede uma cor.
Pede uma pincelada.
Pede uma mudança.
Às vezes pede até que eu retire alguma coisa que eu tinha certeza de que deveria estar ali.
E eu preciso ouvir.
Porque a pintura, depois de certo ponto, deixa de ser apenas uma ideia minha.
Ela começa a existir.
E quando ela começa a existir, pode dizer coisas que eu não pensei.
É por isso que acho tão fascinante quando alguém olha para uma tela minha e enxerga alguma coisa que eu não vi.
Uma vez, pintei uma concha de feijão de metal.

Para mim, era simplesmente uma concha.
Mas alguém olhou para aquela forma e disse que estava vendo um ursinho de pelúcia.
Eu achei aquilo maravilhoso.
Porque, a partir daquele momento, eu também passei a enxergar um pouco daquele ursinho.
Em outra situação, alguém enxergou uma orelha de elefante em uma forma da pintura.
Eu jamais havia pensado naquilo.
Mas a pessoa viu.
E, depois que ela me mostrou, aquela possibilidade passou a existir dentro da obra.
Isso é muito bonito.
Porque significa que a pintura não termina quando eu largo o pincel.
Talvez ela esteja apenas começando.
Ela continua no olhar de quem observa.
Cada pessoa carrega suas próprias lembranças, experiências, medos, desejos, referências e histórias. Então cada pessoa também leva alguma coisa para dentro daquilo que está vendo.
Uma mesma mancha pode ser uma nuvem para alguém.
Para outra pessoa, pode ser uma montanha.
Pode ser um animal.
Pode ser uma lembrança.
Pode ser alguma coisa que nem sequer conseguimos nomear.
E quem sou eu para dizer que aquela pessoa está errada?
A obra também é dela naquele instante.
Isso não significa que a intenção do artista não tenha importância.
Tem.
Eu sei o que quis pintar. Sei de onde veio a referência. Sei o que me motivou. Sei o que senti enquanto estava trabalhando.
Mas acredito que a intenção é apenas o começo.
Depois existe aquilo que a pintura se torna.
E, finalmente, existe aquilo que o outro encontra nela.
São três coisas diferentes.
E talvez seja justamente essa diferença que torne a arte tão fascinante.
Acho que existe uma certa humildade necessária para ser artista.
A humildade de entender que você não controla tudo.
Que nem sempre precisa explicar.
Que nem sempre precisa corrigir a interpretação de alguém.
Que uma pessoa pode encontrar na sua obra uma coisa que você nunca imaginou e, ainda assim, aquilo ser verdadeiro para ela.
Talvez a beleza da obra esteja justamente nessa possibilidade.
Na capacidade de aceitar o inevitável.
De acreditar naquilo que se vê, mesmo quando aquilo que se vê não estava nos planos de quem pintou.
Eu não quero controlar completamente uma pintura.
Quero conduzi-la.
Quero conversar com ela.
Quero descobrir onde ela vai chegar.
É diferente.
Talvez por isso eu goste tanto de pintar de maneira espontânea.
Não porque eu não conheça as regras.
Mas porque eu conheço algumas delas o suficiente para poder esquecê-las por alguns instantes.
A técnica nos ajuda.
A técnica nos favorece.
A técnica nos dá repertório e liberdade.
Mas a técnica, sozinha, não garante verdade.
Você pode saber exatamente como fazer uma coisa e, ainda assim, não conseguir dizer nada com ela.
Por outro lado, uma pequena imperfeição pode carregar uma verdade enorme.
Uma pincelada torta pode ter mais vida do que uma pincelada perfeita.
Uma cor inesperada pode fazer uma pintura respirar.
Um acidente pode se transformar em descoberta.
Uma forma não planejada pode se transformar em significado.
É por isso que eu ainda acredito no inevitável.
Acredito naquela pincelada que não estava planejada.
Naquela cor que apareceu quase por acidente.
Naquela forma que surgiu no meio do caminho.
Naquela sombra que parece dizer alguma coisa.
Naquele pequeno erro que você decide não corrigir.
Acredito naquele momento em que você para de tentar fazer a pintura acontecer e percebe que ela já está acontecendo.
E talvez seja isso que eu procure quando entro no ateliê.
Não apenas reproduzir aquilo que estou vendo.
Mas descobrir aquilo que pode aparecer enquanto estou pintando.
Porque, no fim das contas, pintar não é apenas colocar tinta sobre uma superfície.
É permitir que alguma coisa aconteça entre você, a matéria e o olhar.
E quando essa coisa acontece de verdade, talvez nem o próprio artista consiga explicar completamente o que aconteceu.
Ainda bem.
Porque, se fosse possível explicar tudo, talvez não fosse mais necessário pintar.
É por isso que continuo acreditando na técnica.
Mas acredito ainda mais naquilo que acontece depois dela.
Continuo estudando.
Continuo observando.
Continuo aprendendo.
Mas, quando chega a hora de pintar, eu tento simplesmente ir.
Sem pedir licença demais.
Sem pensar demais.
Sem querer controlar tudo.
Com todo o meu coração.
Com toda a minha alma.
E aberto ao inevitável.
Porque, para mim, é justamente aí que a pintura começa a deixar de ser apenas uma coisa que eu faço…
e passa a ser uma coisa que acontece.
