Perdi uma pessoa que foi muito importante na minha vida. Ela se chamava Glória, mas para mim sempre foi a Tia Gó.
Ela era daquelas tias que falavam palavrão o tempo todo. Aliás, acho que falava mais palavrão do que qualquer outra coisa. Era uma figura. Muito sincera. Não levava desaforo para casa. Melhor dizendo: ela nem deixava o desaforo sair do lugar. Mandava todo mundo para a merda. Todo mundo que merecia.
Os sobrinhos ela chamava de “estrupício”. Eu, particularmente, ela sempre mandava tomar naquele lugar. Pensando bem, não me lembro de uma única vez em que ela tenha deixado de fazer isso. Mas eu também merecia. Sempre atazanei muito a vida dela.

Receber um xingamento da Tia Gó era quase um elogio. Era um sinal de intimidade, de carinho do jeito dela. Apesar da distância — moro em outra cidade — a gente se falava com frequência por telefone. E, no meio de qualquer conversa, sempre cabia um “vai tomar no cu”.
Ela vai fazer muita falta. Ela cuidou de todo mundo da família.
A Tia Gó viveu de um jeito raro: genuíno, verdadeiro, sem qualquer traço de hipocrisia. Para mim, isso não tem preço.
Queria ter feito mais por ela. Queria ter vivido mais momentos ao lado dela. Mas a gente sempre acha que as pessoas vão viver para sempre.
Ela falava comigo do mesmo jeito que os meus amigos mais íntimos: dizia a verdade na cara. Se minha barba estava grande demais, ela soltava sem cerimônia:
— Tira essa coisa feia. Tá parecendo o véio do rio.
Mas há duas lembranças que vão ficar comigo para sempre.
A primeira foi a última vez que a vi. Foi por uma chamada de vídeo. Ela estava internada, muito debilitada. Conversamos um pouco. Sem saber, aquele foi o nosso adeus.
A segunda aconteceu no dia do seu funeral.
Cheguei perto do caixão. Bem perto do ouvido dela. Como quem vai cochichar um segredo, bem baixinho, eu disse:
— Tia… vai tomar no cu.
E, pela primeira vez na vida, ela não respondeu.
