Eu quase não escrevo sobre minhas obras.
Na verdade, nunca fui muito preocupado em explicar aquilo que pinto. Talvez eu esteja falhando nisso. Talvez um artista devesse falar mais sobre seu próprio trabalho, contar suas histórias, explicar suas escolhas, dar pistas para que as pessoas entendam o que existe por trás de uma tela.
Mas eu confesso que não tenho muita facilidade para isso.
Eu pinto.
E, depois que termino, geralmente sigo em frente.
Não tenho muito apego às minhas obras. Algumas me acompanham por um tempo, outras rapidamente encontram alguém que se encanta por elas e as leva para casa. E eu gosto disso. Acho que uma pintura, depois de pronta, precisa ganhar vida longe do artista também.
Mas Elas e os Gatos é diferente.

Por essas pinturas eu tenho um carinho especial.
Talvez porque exista nelas alguma coisa que vai além da pintura.
Sempre gostei de pintar figuras humanas e animais. São dois universos que me fascinam. O corpo, o olhar, os gestos, a postura, a maneira como alguém ocupa um espaço. E, nos animais, existe uma espécie de verdade que me encanta. Eles não precisam explicar quem são. Eles simplesmente são.
E quando consigo juntar essas duas coisas numa mesma pintura, acontece alguma coisa que me prende.
Eu me apaixono pela obra.
Para mim, não existe nada mais significativo — e talvez mais sensual — do que uma mulher com seu gato.

Não estou falando apenas de sensualidade no sentido óbvio da palavra. Existe uma sensualidade muito mais profunda nesse encontro. Uma intimidade silenciosa. Um gesto de cuidado. Um corpo próximo de outro corpo. Um olhar que não precisa de palavras.
É um universo muito feminino.
Muito belo.
Muito delicado.
E, ao mesmo tempo, misterioso e fantástico.
Talvez eu goste tanto de pintar isso porque, de alguma maneira, eu vejo essa relação dentro da minha própria casa.
Adoro ficar observando minha esposa cuidando da nossa gatinha.
É uma cena absolutamente cotidiana. Não tem nada de extraordinário acontecendo. E talvez seja justamente por isso que eu goste tanto.
Ela pega a gata no colo. Faz carinho. Conversa com ela. Cuida dela.
E a gata responde do jeito dela.
Elas se amam.
E eu amo as duas.
Existe alguma coisa muito bonita em observar duas criaturas que não precisam da nossa linguagem para estabelecer uma relação tão profunda. Talvez seja por isso que os gatos tenham aparecido tantas vezes na história da arte. Eles carregam uma presença que é, ao mesmo tempo, doméstica e selvagem. São companheiros, mas nunca deixam de guardar algum mistério.
E talvez seja esse mistério que eu tenha tentado pintar.
A história de como resgatei nossa gata também é muito bonita. E emocionante.
Um dia eu conto.
Hoje, olhando para tudo com um pouco mais de distância, consigo enxergar coisas que na época eu não conseguia. Consigo entender encontros, circunstâncias e coincidências que talvez nem tenham sido coincidências.
Às vezes, determinadas coisas simplesmente chegam até nós.
E só muito tempo depois entendemos por quê.
Hoje eu vejo a presença dela na nossa vida de uma maneira diferente. Parece que ela precisava encontrar a gente tanto quanto a gente precisava encontrar ela.
Mas essa história merece um texto só para ela.
Elas e os Gatos nasceu desse universo.
Pintei uma série com quatro telas e, para minha própria surpresa, fui criando uma relação diferente com cada uma delas.

Desde o nascimento da ideia até a escolha das referências, dos gestos, das mulheres, dos gatos, das cores e, principalmente, da maneira de pintar, tudo foi muito prazeroso.
Eu gostei do processo.
Gostei de não saber exatamente onde cada pintura iria chegar.
Gosto disso na pintura.
Gosto quando a tela começa a tomar suas próprias decisões.
A gente começa achando que sabe o que vai fazer, mas em algum momento a pintura começa a conversar com a gente. Uma pincelada pede outra. Uma área precisa ficar mais solta. Uma parte precisa desaparecer. Outra precisa aparecer.
E, de repente, a pintura deixa de ser apenas aquilo que imaginamos no começo.
Ela passa a ser outra coisa.
Talvez seja justamente por isso que eu goste tanto de pintar.
Eu gosto de coisas que não estão completamente resolvidas.
Gosto do mal-acabado.
Gosto da pincelada aparente, da marca do gesto, daquilo que não foi completamente explicado. Gosto quando ainda conseguimos perceber que aquilo foi feito por uma pessoa, por uma mão, por alguém que esteve diante daquela tela tentando encontrar alguma coisa.
Gosto de um realismo atravessado pelo impressionismo.
Uma imagem que ainda pode ser reconhecida, mas que não está presa à obrigação de reproduzir a realidade exatamente como ela é.
Na minha última exposição, minha curadora definiu meu trabalho como uma releitura do impressionismo contemporâneo.
Eu gostei dessa definição.
Porque talvez seja exatamente isso que eu procuro: partir da realidade, mas não ficar preso a ela.
Desconstruir um pouco a imagem.
Deixar que a pincelada participe da construção.

Permitir que algumas coisas sejam vistas e outras apenas sugeridas.
Afinal, pintura também é silêncio.
E talvez seja por isso que eu não goste muito de explicar demais minhas obras.
Porque, quando explicamos tudo, talvez tiremos do outro a possibilidade de descobrir alguma coisa sozinho.
Eu gosto quando alguém olha para uma pintura minha e enxerga algo que eu não tinha planejado.
Gosto quando alguém encontra uma história dentro de uma tela que não estava na minha cabeça.
Gosto quando a obra deixa de ser completamente minha.
Talvez essa seja uma das maiores belezas de pintar.
Você começa com uma intenção.
Termina com uma obra.
E, depois disso, cada pessoa encontra uma coisa diferente dentro dela.
Elas e os Gatos ainda estão comigo.
E eu ainda não sei exatamente o que vou fazer com elas.
Talvez porque, dessa vez, eu tenha me apegado.
Mas, sim, elas estão à venda.
Estou aberto a propostas diversas, inclusive para quem quiser levar mais de uma delas.
Porque, apesar do apego, também acredito que uma pintura precisa encontrar seu lugar.
Precisa encontrar uma parede.
Uma casa.
Uma pessoa.
Uma história nova.
E talvez seja esse o destino de toda obra de arte: sair das mãos de quem a criou e começar uma nova vida na imaginação de quem a recebe.
Foram apenas quatro telas.
Mas, para mim, elas carregam muito mais do que quatro imagens.
Carregam um pouco da minha casa.
Da minha esposa.
Da nossa gata.
Da minha maneira de olhar para as mulheres, para os animais e para as pequenas intimidades da vida.
E carregam, principalmente, o prazer de pintar.
E, modéstia à parte, acho que ficaram lindas.
Talvez porque, dessa vez, eu não tenha pintado apenas aquilo que estava diante dos meus olhos.
Pintei também aquilo que estava dentro deles.
Às vezes, o amor pela pintura não é maior do que o amor pela poesia.
Porque pintar também é uma forma de escrever.
Só que com cor, silêncio, gesto, luz e matéria.
E ser poeta talvez seja exatamente isso:
tirar de onde não tem
e colocar onde não cabe.
