Há quem acredite que a arte nasce no instante em que o pincel toca a superfície, como se a simples fricção entre gesto e matéria fosse suficiente para gerar vida.
Eu não vejo assim.
Pra mim, a obra de arte — a verdadeira — só se revela quando encontra um olhar que a reconhece.
E esse reconhecimento, por mais prosaico que pareça, quase sempre se concretiza quando ela é vendida.
É duro admitir, quase cínico, mas não deixa de ser honesto: antes disso, ela vive numa espécie de limbo entre existir e não existir.
Antes da venda, a pintura repousa num canto do ateliê, cercada por outras irmãs silenciosas, todas aguardando o mesmo destino incerto.
Ateliês e galerias lotadas de produção têm uma energia difícil de explicar:
é como se ali habitassem sonhos engavetados, pulsações contidas, intenções que ainda não encontraram sua outra metade.
Cada tela tem uma história que ansia ser contada, mas nenhuma pode falar por si.
Elas dependem do milagre do encontro.
E, ainda assim, existe algo de paradoxal nesse processo.
Porque às vezes, dependendo do que acontece entre artista e obra, uma tela em branco pode valer mais do que aquela que recebeu horas de dedicação, frustração, esperança e repintura.
A tela virgem é promessa pura.
É possibilidades infinitas.
É amanhã, é talvez, é tudo o que poderia ser.
A tela pintada é escolha.
É caminho tomado, risco assumido, renúncia a todas as outras versões possíveis.
O mercado, impiedoso e sensível ao mesmo tempo, percebe isso: valoriza o mito do que ainda não nasceu mais do que a existência concreta daquilo que já foi feito com suor.
Não estou desmerecendo o artista — jamais.
Estou observando o óbvio que ninguém gosta de admitir:
vender é uma arte paralela, quase independente da pintura em si.
Vender exige outra habilidade, outro ritmo, outra coragem.
É preciso encontrar a pessoa certa para aquela obra, e isso não acontece facilmente.
Uma pintura não serve para qualquer um; ela busca alguém específico, alguém que se reconheça ali como quem encontra um fragmento esquecido de si mesmo.
É estranho, mas é real: as obras parecem ter destino, e o artista precisa apenas aceitar que ele não controla isso.
Só talento não basta.
Só estudo não basta.
Só paixão não basta.
É necessário falar com o mundo — e isso é mais difícil do que parece para quem está acostumado a falar com telas.
É preciso caminhar por entre pessoas, ouvir seus silêncios, sentir seus ritmos, se deixar afetar.
É preciso construir relações com sinceridade, mas também com estratégia.
Ser gentil, mesmo quando a alma quer recolhimento.
Ser firme, mesmo quando a insegurança estremece o gesto.
Saber usar a palavra, afiar o pensamento, abrir o corpo para o mundo.
Ser bom com a língua, com o olhar e com o silêncio.
Ser bom em caminhar.
Ser bom em existir diante do outro — isso também é parte do ofício.
A tela em branco é mãe de todos os medos: ela te olha, te julga, te provoca.
Ela te pergunta quem você é, o que quer dizer, o que tem coragem de encarar.
Ela te obriga a se ouvir.
Cada pincelada é uma resposta, mas cada resposta abre uma nova pergunta.
E, quando a tela enfim está terminada, quando você acredita que colocou nela tudo o que poderia, algo estranho acontece: ela deixa de ser sua.
Passa a ser dela mesma.
E depois, se for vendida, passa a ser de outra pessoa.
É um processo de desapego constante, um deixar ir que pode ser doloroso ou libertador, dependendo do dia.
Há um detalhe que poucos entendem:
o público não compra técnica — compra emoção.
Compra a memória que a pintura desperta, a saudade que ela acende, o vazio que ela preenche, a inquietação que ela causa.
Compra a sensação de que aquele quadro diz algo que ninguém mais disse, mas que ela sempre soube.
O artista não vende tinta sobre tela; vende o invisível.
E o invisível, ao contrário do que muitos pensam, dá trabalho.
A venda é o encontro entre dois mistérios: o mistério de quem cria e o mistério de quem vê.
É quase um ritual.
Quando alguém compra uma obra, está comprando também a história de como a obra olhou de volta para ela.
E isso é profundamente íntimo.
Enquanto isso não acontece, a pintura é apenas uma pergunta aberta.
Uma interrogação colorida esperando por alguém que tenha a resposta.
E só no instante em que essa resposta aparece — às vezes de forma súbita, às vezes depois de anos — é que a obra finalmente nasce para o mundo.
A criação é só metade do caminho.
A outra metade é o encontro.
E nesse espaço entre o que se faz e o que se encontra, entre o que se pinta e o que se sente, entre o que se oferece e o que se acolhe, existe o verdadeiro lugar da arte:
não na tela, não no artista, não no comprador — mas no invisível que se cria entre eles.
Até lá, toda obra é apenas uma promessa silenciosa esperando por alguém que a desperte.
