Tito era um menino pequeno demais para a quantidade de coisas que carregava.
Não no corpo — mas no imaginário.
Na mata, surgia armado até os dentes: arco, flechas, facas improvisadas, pedaços de ferro que pareciam ter saído de um sonho torto ou de um pesadelo artesanal. Caminhava com passos leves, quase respeitosos, mas os olhos estavam sempre atentos, em vigília. Caçava uma coruja.
Na retaguarda, como um engenheiro silencioso da guerra infantil, vinha o avô. Fabricante particular de armas, cúmplice orgulhoso, homem do mato. Que família.
Tito cresceu ali, no sítio. Toda a sua infância foi desenhada entre cercas de arame, troncos caídos, cheiro de esterco fresco e café passado cedo. Amava cavalos — talvez porque eles fossem grandes demais para serem domesticados por completo, mas obedientes o suficiente para aceitar carinho.
Todos os anos, nas férias, desaparecia da cidade e reaparecia no sítio, como quem retorna ao próprio corpo. Ali, o tempo era outro. O dia não tinha pressa. A noite não tinha medo. Sempre havia uma aventura esperando atrás de uma moita, dentro de um galpão ou no fundo do rio.
Ele gostava de tudo que vivia: bichos, plantas, insetos, pedras. Mas tinha uma predileção especial pelo rio. No fim da tarde, as lavadeiras chegavam com trouxas de roupa equilibradas na cabeça. A água espumava de sabão, cheirava a limpeza e repetição. Ainda assim, havia peixes. Muitos. Ou talvez fosse isso que ele acreditava.
Mas essa parte ficaria para depois.
Entre todas as criaturas do sítio, as corujas eram as mais enigmáticas. Observavam de longe. Nunca permitiam aproximação. Sempre sabiam antes. Tito se sentia desafiado. Não era ódio — era frustração. Um silêncio que o excluía.
A ideia de caçá-las nasceu no dia em que o avô lhe entregou uma faca.
Não foi um presente comum. Foi um gesto solene. Um rito. Tito tinha doze anos. Estava na hora.
Ele já sabia o que viria em seguida. Sabia há muito tempo. No sítio, come-se o que se cultiva e o que se cria. Galinhas, porcos, hortas bem cuidadas. Nada chega embalado. Nada vem sem sangue.
No domingo, Tito matou seu primeiro porco.
Cumpriu o gesto com mãos firmes, mas o coração apertado. Depois, ficou calado. Ouviu elogios. Dos tios. Do avô. O avô que pescava com paciência e silêncio, como se conversasse com a água.
Tito gostava de armas. Arcos, flechas, lâminas improvisadas. Objetos que cortavam o mundo. Mas a faca passou a ser a que menos lhe agradava. Talvez porque ela exigisse proximidade demais. Talvez porque ele gostasse mais dos animais vivos do que do ato de matá-los.
A coruja, no entanto, parecia distante demais para ser amada. Reservada. Inacessível. E isso o incomodava.
Foi então que pediu ajuda ao avô. Estava decidido: queria comer carne de coruja. Talvez nem fosse pela refeição. Talvez fosse pela conquista. Pela prova.
O avô aceitou.
As encomendas começaram a chegar, uma por uma, como capítulos de um projeto secreto. Primeiro, o arco. Madeira de guatambu, resistente, curvada com paciência. Depois, flechas de bambu, com pontas feitas de pregos afiadas à mão. Vieram também um taco estilizado, pesado, e um objeto estranho: um cabo curto com um prego transformado em agulha. Uma arma ou uma escultura. Difícil dizer.
O avô, aposentado, marceneiro por vocação tardia, se encantou com a missão. Trabalhou com afinco. Havia orgulho ali. Havia também afeto.
Durante semanas, Tito perseguiu as corujas. Não lhes deu sossego. Acreditava ter uma missão. Algo a provar — embora não soubesse exatamente o quê. Talvez para o avô. Talvez para si mesmo. Talvez para aquele silêncio que as aves insistiam em manter.
Mas as corujas eram astutas. Observavam sem serem vistas. Fugiam antes do movimento. Sabiam mais.
O tempo passou. Nada.
Até o dia em que Tito voltou da mata cansado, frustrado, derrotado. Entrou na casa e sentiu o cheiro de assado. Sobre a mesa, uma ave. Pequena. Menor que um frango.
O avô disse que era para ele.
— Coruja — afirmou, simples.
Tito se emocionou. Pegou uma coxa. Pequena demais. Riu, incrédulo. Mas comeu. E ficou feliz. Satisfeito. Sentiu algo parecido com missão cumprida. Afinal, o avô era seu parceiro. Seu cúmplice. Seu espelho.
Anos depois, veio a revelação.
Não era coruja. Nunca foi. Era um frango pequeno. Um gesto de cuidado disfarçado de caça. Uma tentativa de encerrar a angústia do menino sem ferir o mundo.
Riram muito.
Foi então que Tito também contou ao avô seu segredo: os peixes que ele trazia para os almoços da semana vinham do rio das lavadeiras. Aquele rio com mais sabão do que peixe.
O avô riu mais ainda.
E ali, entre mentiras piedosas e verdades tardias, ficou claro que crescer também é isso: aprender que nem toda caça precisa acontecer — e que algumas histórias só existem para nos salvar de nós mesmos.
