Sagrado Ateliê

No meu canto, no meu espaço, existe um território que não se mede em metros, mas em presença. Ali, eu faço o que me mantém vivo. Ali, eu produzo arte.

Se não for para ser assim, eu nem levanto da cama. Porque não se trata de rotina, mas de sentido. Não se trata de trabalho, mas de necessidade. É naquele espaço que eu me realizo, que eu respiro mais fundo, que eu sonho acordado.

Uma vez me perguntaram qual era a minha religião. Pensei por alguns segundos e respondi que não tinha uma. Mas logo percebi que a resposta era incompleta. Eu não sigo dogmas, não frequento templos de pedra, não repito orações decoradas. Ainda assim, minha conexão com o divino existe — e ela acontece no meu ateliê.

É ali que a inspiração deixa de ser abstração e ganha corpo. Onde o invisível se torna visível. Onde aquilo que não cabe em palavras encontra forma, cor, gesto. No ateliê, o tempo desacelera. O mundo lá fora perde urgência. E, curiosamente, é quando tudo silencia que algo maior começa a falar.

Eu encontro Deus até quando estou limpando os pincéis, organizando a paleta, preparando a tela. Porque o sagrado não está apenas no ato final, mas no cuidado, na repetição, no respeito pelo processo. Há algo de ritual em cada gesto simples. Em cada preparação silenciosa. Em cada espera.

Jesus no Getsemani dentro do Ateliê (Pintura a óleo 30×40)

Meu encontro com o divino acontece no instante em que molho os pincéis na tinta. Nesse momento, eu deixo de conduzir e passo a ouvir. Ouço música. Ouço vozes que não sei de onde vêm. Ouço o silêncio — esse silêncio profundo que não é vazio, mas presença. É como se o mundo se afastasse alguns passos para que algo essencial pudesse se aproximar.

Com o tempo, percebi algo ainda mais profundo: meu ateliê nunca foi apenas um lugar físico. Ele sempre esteve dentro de mim. Um espaço interno, íntimo, onde me recolho para compreender o mundo e a mim mesmo. Um lugar onde a dúvida não é medo, mas motor. Onde o erro não é fracasso, mas caminho. Onde o gesto imperfeito é, muitas vezes, o mais verdadeiro.

Nesse espaço interno, encontro o sagrado não como algo distante ou intocável, mas como experiência cotidiana. O sagrado que se manifesta no gesto, na mancha, na textura, na tentativa. O sagrado que não exige explicação, apenas entrega.

Minha religião é a arte.

Não porque ela me dá respostas, mas porque me ensina a perguntar melhor.

Não porque ela promete salvação, mas porque me oferece sentido.

Minha inspiração é divina porque nasce desse lugar invisível onde razão e mistério se encontram. Pintar, para mim, é uma forma de oração sem palavras. Um diálogo silencioso com algo maior. Um modo de existir com mais profundidade.

No meu ateliê — seja ele feito de paredes ou de memória — eu não busco Deus. Eu o reconheço.

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