Quanta coisa acontece quando eu sento.
Às vezes penso que ninguém percebe a dimensão desse gesto tão simples. Encostar o corpo numa cadeira parece nada demais — mas, para mim, é abrir uma fresta por onde o mundo inteiro pode entrar. Basta dobrar os joelhos, ajeitar a coluna, entregar o peso. Nesse instante, alguma engrenagem secreta começa a trabalhar. Eu penso, eu produzo, eu pinto, eu escrevo. Às vezes só respiro — mas até o ar, quando eu sento, ganha textura.
E quando a tal inspiração resolve aparecer, então? Aí tudo se transforma. Eu viajo sem comprar passagem, eu minto com a elegância de quem cria, eu engano o silêncio, eu exploro becos de mim que eu mesma evito, eu roubo histórias guardadas em outras vidas. Tudo isso sentado, imóvel, quase tolo. Um gesto pequeno que aciona o universo.
Mas há um mistério: eu sinto e sento, ou sento e só então sinto?
Às vezes acho que a ordem não importa. Outras, desconfio que toda a minha vida depende dessa sequência. O que vem primeiro: o impulso ou o repouso? A inquietação ou o descanso?
Sentar, para mim, é uma luta. Um duelo silencioso. Como se a cadeira fosse um território sagrado e eu precisasse pedir permissão para entrar. Me custa parar. Me custa decidir: “é agora”. Me custa enfrentar o que aparece quando tudo o resto desacelera.
Mas eu paro.
Eu sento.
E quando eu sento… ah, aí eu sinto.
E é sentindo que começo a entender que talvez a vida inteira seja feita dessas pausas que fingem ser descanso, mas na verdade são recomeços. Será que o sentido da vida está nas sentadas que damos em busca de algo — uma resposta, uma faísca, uma coragem? Ou será que é o contrário, e são as sentadas que nos dão sentido — que nos colocam no eixo, que alinham o corpo ao pensamento, que abrem caminho para o que somos quando ninguém está olhando?
Não sei.
Ou talvez saiba — mas prefiro fingir que não, porque as perguntas sempre me levam mais longe do que as respostas.
Sentindo sentado ou sentando sentindo, eu fico. Fico porque nesse ficar existe o meu movimento. Porque há caminhadas que só acontecem quando o corpo permanece. Porque há viagens que só começam quando o mundo em volta decide se calar um pouco. Porque há descobertas que só se revelam quando estou quieta o bastante para ouvi-las.
Quando eu sento, encontro coisas. Memórias que eu não lembrava, dores que já achei que tinha superado, alegrias que voltam como quem toca a campainha sem avisar. Encontro vontades esquecidas, ideias que chegam correndo, medos que se sentam ao meu lado e dizem: “finalmente”.
E aos poucos, percebo que a cadeira não é só um objeto: é um espelho. Um altar. Um abrigo. Uma armadilha. Um convite. Depende do dia, depende de mim.
Às vezes sento e nada acontece. A mente vira um quarto escuro, silencioso, quase hostil. Mas mesmo isso é um acontecimento: o vazio também fala, só que em sussurros. Outras vezes sento e vem tudo de uma vez — palavras, cores, raivas, lembranças, projetos, culpas, belezas. Fica tudo comprimido, querendo sair pelo mesmo lugar. Fico até tonta. É o preço da criação ou da sensibilidade — ainda não sei.
E, no meio de tudo, lembro do poeta, sábio e irritado com a própria sensibilidade, que disse:
“Difícil não é pintar. Difícil é sentar para pintar.”
Eu sempre achei que era exagero. Hoje entendo que era aviso.
Porque eu posso até levantar, correr, resolver mil coisas, responder mensagens, buscar copos d’água, arrumar a mesa, inventar urgências. Mas só quando eu sento é que eu me encontro. Só quando eu sento é que percebo para onde estou indo. Só quando eu sento é que crio alguma coisa que realmente importa.
E no fim, acho que a vida é isso: uma sucessão de sentadas corajosas, dessas que exigem entrega, dessas que arrancam o que a gente tenta esconder. E que, por um instante, nos fazem lembrar que ainda somos capazes de sentir — mesmo quando estamos apenas… sentados.
