Observar

Eu ando por aí como quem percorre um território secreto, invisível para a maioria das pessoas. Meus olhos não passeiam — eles investigam, se aprofundam, se derramam em tudo. Observo com detalhes, com profundidade, com uma sensibilidade que às vezes me pesa nos ombros. É difícil não perceber as coisas quando se aprendeu a olhar de verdade. É difícil não ver além quando, sem perceber, a gente se acostuma a enxergar o mundo por dentro.

A pintura me deu esse presente estranho. Quando eu só queria pintar, descobri que primeiro precisava aprender a observar. E quando comecei a observar, percebi que a pintura era inevitável. Uma coisa convocava a outra, como se fossem duas metades de um mesmo gesto. Passei a entender que olhar não é uma ação simples; é uma entrega. Um compromisso silencioso entre o artista e o real.

Demorei muitos anos para compreender que essas duas coisas — observar e pintar — estavam entrelaçadas. Não é possível separá-las sem que algo se perca. A verdadeira observação exige uma espécie de atenção absoluta, quase uma forma de meditação. É preciso ver o que as pessoas normais não veem, aquilo que se esconde na fresta, atrás da luz, dentro do silêncio. É preciso sentir o que se vê, porque a imagem só se revela de verdade quando passa antes pela pele, pelo peito, pela memória.

Hoje sei que a diferença entre um artista e um curioso não está apenas no talento ou na prática. Está na capacidade de traduzir o invisível. O artista tenta colocar na tela aquilo que mora por trás da aparência das coisas: o sopro, o espírito, a vibração que existe antes da forma. Ele tenta capturar não o que se vê, mas o que se revela quando se vê. E isso é raro. É quase como tentar pintar um segredo.

Colocar numa tela aquilo que as pessoas não sentem — e ainda assim fazê-las sentir — é talvez a maior ambição e também o maior tormento de quem cria. É um gesto de generosidade e de teimosia. Converter o íntimo em visível. Transformar o indizível em cor. Fazer o olhar do outro atravessar o que o meu olhar já atravessou.

Eu vejo coisas. Vejo demais, às vezes. Vejo o que acontece entre as linhas, na zona que fica entre o real e o que escapa dele. Vejo os silêncios que ninguém nota. As pequenas dores que ninguém assume. As belezas que passam tão rápido que parecem inventadas. E isso me acompanha onde quer que eu vá — como uma lanterna acesa dentro do peito.

E ainda me pergunto: ver assim é um privilégio? Ou seria uma maldição? Talvez seja as duas coisas ao mesmo tempo. Um dom que ilumina e fere. Um fardo que pesa, mas que também me guia. Um tipo de sensibilidade que cobra, mas que também oferece sentido.

Porque, no fim, é isso que me torna quem sou. Ver além, sentir além, e tentar devolver ao mundo — através da pintura — aquilo que vivi com o olhar. Pintar, para mim, é a tentativa de conversar com essa realidade que insiste em me revelar mais do que eu peço. É uma forma de cura, de abrigo, de tradução. É um jeito de dizer ao mundo: “Eu vi. Eu senti. E quero que você sinta também.”

E talvez seja justamente isso que define a alma de um artista: não apenas ver o que existe, mas se permitir ser transformado pelo que vê — e transformar o mundo de volta.

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