Há algo profundamente revelador quando alguém olha para uma obra minha e diz enxergar nela algo que eu, conscientemente, não coloquei ali. Não sinto estranhamento, nem desconforto. Sinto alegria. Uma alegria quase infantil. Porque, nesse instante, a pintura deixa de ser apenas minha e passa a existir de verdade. É ali que a arte começa.
Sempre acreditei que essa é a graça da coisa.
Eu pinto para as pessoas — e, às vezes, pinto para mim. Mas, acima de tudo, pinto com tudo o que tenho. Com o coração aberto, com a alma inteira, sem economias. Não sei fazer arte de outra maneira. Se não for assim, prefiro não fazer. A técnica pode até estar presente, silenciosa, sustentando a estrutura, mas ela nunca ocupa o centro. O centro é a entrega.
A técnica é importante, sim. Ela nos dá ferramentas, vocabulário, consistência. Ela educa o gesto e organiza o pensamento. Mas é a espontaneidade que faz a diferença. É ela que cria o abismo entre o que é correto e o que é vivo. É ela que separa os homens dos meninos.
Pense numa conversa. Quando você fala com alguém, você se preocupa com a gramática enquanto fala? Você calcula se o verbo está no plural, se o tempo verbal é o mais adequado, se aquela palavra é substantivo ou adjetivo? Não. Você simplesmente fala. E é justamente por isso que a conversa flui. Porque existe presença, não cálculo.
A criação artística funciona da mesma forma.
Antes de chegar a esse ponto, é preciso estudar. Muito. Errar, repetir, insistir. O estudo não é descartável — ele é essencial. Mas chega um momento em que esse conhecimento precisa deixar de ser um peso consciente. Ele precisa se deslocar para outro lugar, mais fundo, mais silencioso. Quando isso acontece, você não pensa mais sobre o que sabe. Você apenas faz.
Um músico que está verdadeiramente tocando não pensa nos modos gregos, nas escalas ou nos nomes das notas. Se pensasse, travaria. Ele toca porque o corpo já sabe. Porque o som passa por ele sem pedir licença. A música acontece no mesmo instante em que ele se entrega a ela. É mágico assim.
Na pintura, não é diferente.
As obras mais verdadeiras surgem desse estado. Elas parecem vir do nada — ou talvez de um lugar tão profundo que nossa linguagem não alcança. São as obras mais expressivas, aquelas que permanecem. As que atravessam épocas, resistem ao tempo e continuam dizendo algo, mesmo quando o mundo ao redor muda.
Essas obras não nascem do controle absoluto. Elas nascem da confiança. Da coragem de deixar algo acontecer.
Independentemente do que fazemos, as pessoas sempre enxergam coisas que nós mesmos não percebemos. E isso não é falha — é potência. A intenção do artista raramente coincide com a totalidade da obra. Ela não está presa à escolha da referência nem ao ponto de partida. A criação se forma a partir de algo que surge de dentro, algo que não se submete totalmente à razão.
Lembro-me de uma vez em que fiz uma concha — feita de feijão — em metal. Para mim, aquilo era exatamente isso: uma concha. Mas alguém olhou e disse ver um ursinho de pelúcia. Aquilo me fascinou. Em outro momento, algumas pessoas enxergaram a orelha de um elefante em uma forma que eu jamais havia nomeado assim. Não estava planejado. Não foi buscado. Ainda assim, fazia sentido.
Esses momentos revelam algo fundamental: a obra não se encerra no artista. Ela continua acontecendo no olhar do outro.
A beleza da arte está na humildade de aceitar o inevitável. Em compreender que a imagem sempre será maior do que a intenção. Em acreditar no que se vê, mesmo quando não se vê da mesma forma. Em permitir que o sentido se desloque, se transforme, se multiplique.
Talvez seja isso que diferencia a arte viva da arte apenas correta. A arte viva aceita o risco. Ela aceita não ter todas as respostas. Ela aceita perder o controle.
A técnica nos ajuda, nos favorece, nos sustenta. Mas não é ela que faz a obra respirar. O que dá vida à criação é aquilo que escapa. Aquilo que não foi totalmente decidido. Aquilo que acontece apesar de nós — ou, talvez, exatamente por causa de nós.
Por isso sigo acreditando no inevitável. No gesto que se impõe. Na forma que surge. No sentido que nasce depois. A pintura, quando é verdadeira, não obedece. Ela acontece.
E é nesse acontecimento que eu encontro sentido.
