Inquietudes

Outro dia, numa conversa aparentemente trivial, confessei sem pensar: “eu só penso em pintura.” Quem me ouviu talvez tenha achado exagero, mas não era. Não é. Inclusive, enquanto eu falava aquilo, eu já estava pintando.
Pintava silenciosamente, por dentro, como quem respira sem perceber.

Eu pinto mesmo quando minhas mãos estão vazias.
Pinto sem pincéis, sem telas, sem tintas — e, ainda assim, tudo ao meu redor se transforma em rascunho, paleta, composição. É como se o mundo inteiro fosse um grande ateliê improvisado, onde nada está pronto e tudo está sempre à beira de virar outra coisa.

Naquele momento da conversa, eu deveria estar presente. Deveria.
Mas minha presença é sempre dividida: metade no mundo dos vivos, metade numa dimensão que poucos enxergam. Enquanto a outra pessoa falava, eu via cores que não estavam ali, luzes que não pertenciam àquele ambiente, sombras que se moviam sozinhas como se tentassem seduzir meus olhos. E, de vez em quando, até os amigos sentados comigo ganhavam contornos irreais, como se fossem personagens de um quadro em construção.

Algumas pessoas ouvem vozes.
Outras enxergam mortos.

Eu vejo… coisas.
Coisas que não pediram para existir e, mesmo assim, insistem em nascer dentro de mim.

Talvez isso seja um dom. Talvez seja uma maldição. Talvez todo artista carregue um pouco das duas coisas — o fardo e o relâmpago, o peso e o milagre, a tormenta e o farol.

Desde criança, as cores me seguiam.
Lembro de olhar para o chão e ver manchas que dançavam; para o céu e ver traços que ninguém mais parecia notar; para uma parede branca e visualizar histórias inteiras querendo explodir para fora. Enquanto meus colegas brincavam, eu desmontava o mundo em fragmentos: textura, sombra, profundidade. O real nunca me bastou. O real era só o ponto de partida.

Cresci assim, preso a detalhes, viciado em desconstruções.
Não me interessava reproduzir nada como era — isso, qualquer máquina poderia fazer. O que me move é a realização, a invenção insolente do que não existe.

O problema — ou o milagre — é que essa forma de ver o mundo não dá descanso. Meus olhos nunca dormem. Mesmo fechados, continuam recolhendo cores, guardando brilhos, catalogando movimentos. O corpo inteiro vira instrumento: mãos inquietas, pernas impacientes, respiração ansiosa.

Há dias em que tudo isso pesa.
Ser artista, afinal, não é essa fantasia romântica que muitos imaginam. É viver com a mente sempre ligada, sempre aberta demais, sempre vulnerável. É carregar uma sensibilidade que atravessa a pele e dói.

E então surge a pergunta que sempre volta:

ser artista é liberdade ou prisão?

A resposta muda com os dias.
Às vezes, sinto que a arte é meu único território livre — meu grito mais puro, meu jeito de existir sem pedir permissão.
Mas, em outras horas, percebo que vivo preso a algo que me escolheu antes que eu pudesse escolher qualquer coisa.

É como estar dentro de uma cela imensa, de portas abertas, mas ainda assim permanecer ali porque o mundo lá fora não faz sentido. É como se eu fosse condenado a criar — não como castigo, mas como única forma possível de sobrevivência.

E no meio dessa confusão, nesse caos organizado que carrego no peito, eu encontro paz.
Sim, paz.
Essa paz estranha que só existe quando estou diante daquilo que me inquieta. Quando aceito que não sou apenas alguém que pinta, mas alguém que precisa pintar para continuar respirando.

Talvez seja isso, no fim:
A arte é a ferida e a cura.
É o cárcere e a chave.
É a pergunta que não cessa e a resposta que nunca chega.

E, mesmo assim — ou justamente por isso — eu continuo.
Continuo pintando enquanto converso, enquanto ando, enquanto penso, enquanto finjo estar em outro lugar.
Continuo vendo o que ninguém vê, traduzindo o que ninguém disse, transformando o que ninguém tocou.

Porque ser artista é viver onde a escolha não é uma opção — mas onde há, paradoxalmente, a liberdade infinita de poder escolher mundos inteiros para habitar.

Eu pinto para não desmoronar.
Eu pinto para existir.
Eu pinto porque a inquietude me chama — e eu não sei, e talvez nem queira, ficar em silêncio.

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