Enquanto não Durmo

Há noites em que o sono me abandona antes mesmo que eu deite a cabeça. Fico ali, desperto, como se a pintura estivesse me chamando de algum lugar invisível. Existem obras que não aceitam espera; exigem presença. E eu, obediente ao impulso, sigo. Não durmo enquanto não encontro o gesto exato, a mancha que respira, a cor que finalmente diz aquilo que eu, sozinho, não consigo dizer.

O sono só me visita quando a alma está em quietude. Não é a exaustão que o traz, mas o sentido — aquele instante em que tudo se encaixa e o dia parece ter encontrado sua verdade. Sempre achei que sono e desalento não convivem bem. Para mim, dormir é um prêmio, não uma fuga. E só se ganha esse prêmio quando o espírito cumpre sua pequena batalha diária.

Por isso, agora mesmo, não posso dormir enquanto não termino este texto. Há palavras que insistem em nascer, mesmo quando a madrugada já avançou demais. Às vezes acho que escrever e pintar são apenas maneiras diferentes de decifrar o mesmo enigma: a tentativa de tornar visível aquilo que vibra silenciosamente dentro de mim.

Quando o trabalho flui, quando cada gesto encontra sua razão, o sono chega com uma suavidade quase sagrada. Ele cai sobre mim como quem diz: “agora sim, você pode descansar”. E é nessa hora que percebo meu propósito mais simples e ao mesmo tempo mais profundo: dormir todas as noites como quem fecha um ciclo, como quem agradece. Mas, para isso, o dia precisa ter valido a pena. Preciso terminar aquilo que comecei, nem que seja só um sopro, um avanço, um passo mínimo.

Quantas vezes já me levantei no meio da noite, guiado por uma inquietação que não me deixa sossegar? Sento diante da tela escura da madrugada e, num silêncio absoluto, ajusto detalhes invisíveis para qualquer outro olhar — mas essenciais para o meu. Assim vou atravessando madrugadas, como quem atravessa desertos, sabendo que do outro lado há sempre uma revelação. Quem nunca? Todo artista conhece essa insônia que também é oração.

Dormir com a missão cumprida é uma sensação que não cabe em palavras. É como se o universo respirasse em paz ao meu lado. É plenitude. É descanso que não pesa, mas flutua. Talvez seja isso que busco todos os dias: não apenas pintar, mas me reconciliar com o mundo através da pintura.

E assim sigo. Se a inspiração não chega, eu a persigo. Se ela se esconde, eu a provoco. Se foge, eu corro atrás. Ainda que isso me custe noites inteiras, ainda que eu precise buscá-la nos sonhos, ou roubá-la da madrugada mais funda. Porque criar, para mim, não é uma escolha — é a forma que encontrei para existir.

E enquanto essa existência pulsa, enquanto uma obra me chama do outro lado da noite, eu simplesmente… não durmo.

1 comentário em “Enquanto não Durmo”

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